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Escalando Equipes de Engenharia em um Mundo Totalmente Remoto

Julio BorgesJulio Borges
calendar_today30 Dez, 2025
schedule5 min
Escalando Equipes de Engenharia em um Mundo Totalmente Remoto

Escalando Equipes Remotas: Da Sobrevivência à Alta Performance

Gerenciar uma equipe de engenharia distribuída requer estratégias fundamentalmente diferentes do que gerenciar uma equipe presencial. Não se trata apenas de usar o Slack ou o Zoom, mas de repensar como a confiança e a colaboração são construídas.

Quando assumi meu primeiro papel de liderança em uma equipe 100% remota há 5 anos, cometi todos os erros clássicos. Tentei replicar a cultura do escritório no ambiente virtual. Agendei "happy hours" obrigatórios no Zoom (constrangedor), insisti em respostas imediatas (microgerenciamento) e ignorei os fusos horários (burnout).

Hoje, entendo que o segredo não está no controle, mas na autonomia alinhada. E a base para isso é como nos comunicamos e tomamos decisões.

1. A Comunicação Assíncrona é Rei

O maior desbloqueio de produtividade para equipes remotas é adotar verdadeiramente a comunicação assíncrona. Se sua equipe precisa estar online ao mesmo tempo para trabalhar, você não é remote-first, você é apenas um escritório distribuído com latência ruim.

Para evitar que a equipe passe o dia em reuniões de alinhamento, nós estruturamos um Framework de Decisão Técnica robusto. Não confiamos em decisões de corredor; confiamos em documentação viva.

O Poder dos RFCs e ADRs

Muitas empresas falham no remoto porque misturam "discussão" com "decisão". Nós separamos esses dois momentos usando definições claras e um fluxo baseado em Pull Requests no GitHub.

Isso transformou nossa eficiência. Em vez de agendar uma reunião de 2 horas para discutir uma arquitetura com 10 pessoas (20 horas-homem gastas), usamos o seguinte fluxo:

🧠 RFC (Request for Comments) — O Espaço da Colaboração

Usamos RFCs para propor mudanças substanciais, como migrações de arquitetura ou novos padrões técnicos. O RFC é um documento colaborativo e iterativo.

  • O Objetivo: Coletar feedback e construir consenso antes da decisão.
  • O Processo: Um engenheiro abre um Pull Request com a proposta (usando nosso template de RFC). A discussão acontece nos comentários do PR. Isso permite que engenheiros na Europa leiam, pensem e comentem profundamente enquanto a equipe no Brasil dorme.
  • Resultado: Discussões mais ricas e menos reuniões improdutivas.

🧩 ADR (Architecture Decision Record) — A Memória Técnica

Enquanto o RFC é o debate, o ADR é o veredito. É um registro histórico do "porquê" por trás de nossa arquitetura.

  • O Objetivo: Registrar decisões pontuais (ex: "Usar PostgreSQL em vez de MongoDB") de forma curta e direta.
  • A Regra de Ouro: Se uma decisão arquitetural foi tomada, ela precisa virar um ADR. Isso elimina a pergunta "por que fizemos isso assim?" para novos membros.
  • Estabilidade: O ADR é imutável após aceito (exceto se for "Superado" por um novo). Ele serve como a verdade única sobre o sistema.

Por que usar o GitHub para isso?

Adotar o fluxo de Git/Pull Requests para decisões de gestão e arquitetura tem vantagens claras:

  1. Engenheiros amam Markdown: Usamos a ferramenta que o time já domina.
  2. Rastreabilidade Total: Sabemos quem aprovou, quais foram as dúvidas (nos comentários do PR) e quando a decisão mudou.
  3. Aprovação Explícita: Configuramos CODEOWNERS para garantir que Tech Leads e Staff Engineers revisem as propostas críticas antes do merge.
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"O trabalho remoto exige escrita clara. Se você não consegue escrever suas ideias em um RFC, você não consegue liderar remotamente."

2. Documentação como Produto

Na Woba, tratamos nosso repositório de documentação técnica como um produto interno. Ele tem um README claro, templates definidos e um propósito: Melhorar a Tomada de Decisão.

Ao formalizar o processo, ganhamos em três frentes:

  • Onboarding Acelerado: Um novo dev não precisa perguntar para o sênior por que usamos a tecnologia X. Ele lê o adr-001.
  • Redução de Viés: Decisões escritas exigem justificativas lógicas (Contexto, Opções Consideradas, Prós e Contras), reduzindo decisões baseadas apenas em "preferência pessoal".
  • Escala: Podemos dobrar o time sem dobrar o número de reuniões necessárias para manter o alinhamento.

3. Rituais Intencionais

Em um escritório, a cultura acontece nos intervalos do café. No remoto, a cultura deve ser projetada. Além da documentação forte, mantemos rituais síncronos mínimos, mas vitais:

  1. Sync Diária: Reunião diária é essencial, quando possível fazemos um call rapida para alinharmos nossos objetivos do dia e entregas que estamos atuando. Quando não é possível reunir sincronamente, postamos no Slack/Linear o que fizemos e bloqueios.
  2. Demo Semanal: Vídeo gravado (Loom) ou chamada ao vivo curta para mostrar progresso visual. Celebração de entregas.
  3. Retrospectiva: Foco total em melhoria de processo. É aqui que discutimos se nosso processo de RFCs está lento ou se os ADRs estão claros.

Ferramentas Essenciais

  • GitHub: O coração das nossas decisões (ADRs/RFCs).
  • Clickup/Jira/Azure DevOps: Para rastreamento de execução, linkado às decisões do GitHub.
  • Notion/Obsidian: Para base de conhecimento geral (Soft skills, People, Cultura).
  • Loom: Para demos de código rápidas em vez de chamadas de sincronização.

Escalar remotamente não é sobre ferramentas, é sobre processos que sobrevivem à assincronia. Ao adotar RFCs e ADRs como código, transformamos burocracia em alavanca de velocidade.

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